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Leitura Dinâmica

Os Filhos da Pedra
Artigo publicado em: 23/03/2017
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Existem assuntos que temos prazer em conversar e existem coisas que só de pensar nos causam repulsão. Existem sujeiras que queremos limpar e outras que não queremos que saia debaixo do tapete. Estamos convivendo com tantas transformações que nem conseguimos acompanhar.

Uma dessas transformações que não paramos para discutir é o produto do crack na vida da nossa sociedade. Vemos e sentimos na pele os efeitos dele nas cidades. O aumento dos assaltos, furtos em residência, homicídios... A formação dos chamados “comandos”, organizando o crime e a logística da distribuição das drogas, dividindo funções entre si, acertando contas. Os “bebês do crime” barbarizando nos bairros; gente que não tem nada a ver e os que tem tudo a ver com o tráfico de drogas. E como são preciosos pelo fato de estarem dispostos a cometerem ou a assumirem crimes, sabendo que não ficarão presos, porque sendo menores de idade saem quase impunes.

Vemos homens inutilizados e adoecidos perambulando pelas “biqueiras”, cometendo pequenos e grandes crimes, sendo presos e soltos, presos de novo e soltos de novo. Muitos deles eram ótimos profissionais, pessoas boas de verdade e que por algum motivo se perderam. Muitas mulheres dispostas a tudo pra obterem sua porção da droga; ali tem espaço pra prostituição e disseminação de doenças; associadas ao crime se tornam violentas e furiosas armas.

Tudo isto é muito pesado, porém, nada inédito. Tem sido mostrado diariamente neste e em vários outros canais de comunicação desta e de várias outras cidades. Mas existe algo que não tenho ouvido falar tanto e que tem me chamado muita atenção: “Os filhos da pedra”.

São tantas mulheres que engravidam no uso desta substância e que devido ao grau de dominação que ele provoca não se importam em continuar usando, ou se preocupam, mas não conseguem se dominar. Os males de saúde que esses bebezinhos vão trazer pra vida, (se tiverem uma vida) não são os principais problemas dos “filhos da pedra”, são muitas as variações do perfil dessas crianças.

Tem crianças habituadas com o ambiente do uso e comércio da droga e que se adaptaram de alguma forma a isto. Percebem o movimento do tráfico, da prostituição e do crime como cenas comuns do dia a dia. Outras crianças que convivem naturalmente com a ideia de que o pai, ou a mãe, estão presos ou internados em centros de recuperação, vivendo em casas de parentes, tios, avós vizinhos, torcendo para os pais voltarem ou torcendo para não voltarem. Tem pessoas pegando crianças pra criar sem nenhum acompanhamento da Vara da Infância e Juventude; tem crianças crescendo em abrigos e por mais que pareça cruel, estão vivendo melhor que outras que não tem pais viciados.

Em Goianésia, por exemplo, conheci na Casa de Passagem uma garotinha de dez anos que explicava com minúcias de detalhes o fato da mãe ter abandonado ela sozinha em casa, porque o traficante queria matá-la por causa de dívidas de drogas. Não consigo pensar em um padrão comportamental no qual possamos enquadrar essa situação toda. Talvez o termo em uso seja realmente o adequado: - Vulnerabilidade.

Contudo, na equação dos ambientes de recuperação, onde ao traçar o perfil dos usuários consideram e atribuem a dependência química a fatores muito menos graves do que esses indivíduos de tão pouca idade já enfrentam, vem então o meu real pânico: - Tenho uma filha e também fui acometido pela dependência desta droga, não sei o quanto ela pôde perceber isto tudo e o quanto ela foi afetada.

Hoje, trabalhando com recuperação de dependentes químicos fico tentando entender quais serão meus futuros desafios a enfrentar. No momento empresto minha estória de vida para, de alguma forma, tentar gerar a discussão do tema. Confio que a libertação através da fé seja realmente íntegra alcançando toda a família, do contrário teria de acompanhar a desesperançosa ideia de que não há nada a ser feito de eficiente pra ajudar pessoas como eu e como minha filha.

Sendo assim, quebrando os paradigmas, novamente eu como cristão prefiro ser acusado de ter uma fé cega do que enxergar o imenso abismo em que as estatísticas tentam me empurrar. E que isto possa ter um produto que contrarie em tudo a forma com o qual foi produzido.

Dedico este artigo a duas pessoas que, de alguma forma, me incentivaram a pensar no assunto: Crystiano Vieira Dias e sua afilhada Isabella Vieira Dias. Obrigado!

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